...em contemplação.
12.6.22
29.5.22
11.5.22
25.4.22
22.4.22
18.4.22
15.4.22
poema de Eugénio de Andrade
RETRATO DE ACTRIZ
É uma mulher ao espelho; prepara-se
para atravessar o deserto antes de entrar
em cena. Não sei de solidão maior,
já na infância o medo era o meu diadema,
tremia sempre antes de me atirar do muro
sobre o montão de folhas secas; afinal
eram tão maternais as mãos do ar
sobre o meu corpo tão inocente ainda;
mas ignorar é outra forma de saber.
Agora ia ser outra mulher, amar
o poder, pôr na cabeça uma coroa,
sentir o cheiro do sangue até à náusea,
cuspir a vida por não poder suportá-la.
Por fim, trémula ainda, regressará à sua
solidão, à poeira dos dias luminosos,
já sem receio de saltar sobre as folhas
secas - há tantos, tantos, tantos anos.
16-8-84
(Eunice)
É uma mulher ao espelho; prepara-se
para atravessar o deserto antes de entrar
em cena. Não sei de solidão maior,
já na infância o medo era o meu diadema,
tremia sempre antes de me atirar do muro
sobre o montão de folhas secas; afinal
eram tão maternais as mãos do ar
sobre o meu corpo tão inocente ainda;
mas ignorar é outra forma de saber.
Agora ia ser outra mulher, amar
o poder, pôr na cabeça uma coroa,
sentir o cheiro do sangue até à náusea,
cuspir a vida por não poder suportá-la.
Por fim, trémula ainda, regressará à sua
solidão, à poeira dos dias luminosos,
já sem receio de saltar sobre as folhas
secas - há tantos, tantos, tantos anos.
16-8-84