Deixem passar o que há por contar: A voz da cigarra que nunca cantou; A luz do luar que nunca foi dia; O sol que se pôs, de manhã, devagar. Era uma Vez uma grande magia. Beijava de paz tantas dores sentidas; Brilhava, suave, asa de ave contente; Voava ao sabor das horas perdidas.
Voa magia, e vai na miragem do Amor Voa, magia, e volta das voltas sem dor Voa, magia, e veste os teus sonhos de cor Voa, magia, e vai na viagem do Amor.
Não tinha varinha mas tinha um condão: Da vida levar ao cais dos segredos. Tocava a varinha na noite dos medos E o céu acordava na palma da mão.
Voa magia, e vai na miragem do Amor Voa, magia, e volta das voltas sem dor Voa, magia, e veste os teus sonhos de cor Voa, magia, e vai na viagem do Amor.
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Pirilampo Mágico vozes de Maria João, Mariza e Teresa Salgueiro
Cada um a sua fantasia seguir: Eis o segredo da vida sem fingir, Pois o resto, sem ela, a nada nos faz ir! Que se desprezem poder, riquezas, virtude; A felicidade está em saber sorrir E a alegria é o maior bem da juventude...
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(O Príncipe Ligeiro)
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A criança que de manhã, ao levantar, Desgrenhada, nariz alçado, ainda a sonhar Vai escovar os dentes, E obediente bochechar - Que acha que vê realmente? Barba Azul no corredor, Um crocodilo na banheira, espreitador; Da chaleira e da cafeteira Saem guerreiros em fileira Cuja história só a noite sabe de cor... O sonho vivo é encolhido Se lhes dirigirem voz forte e tom subido; Fizeram o pacto, com ele selado, Da bela adormecida no bosque calado E todo o dia ele finge ter morrido. Mas mal regressa a sombra Sob as suas pálpebras, na penumbra Em fantásticos palácios, longe de abrigo Eles vencem o maior perigo. E até o medo é heróico, mesmo na tumba. O sangue da sombra é a sua cobertura E no belo dragão que morre e não dura, É a doçura que lhes é revelada... Depois a noite assim é murmurada Com o mesmo rumor que no seu coração perdura.
« Soube há momentos que a Lena morreu. Morreu há já três dias. Num hospital, numa cama sozinha, provavelmente abandonada… E eu nem sei o que pensar, ou sentir. É estranho.
A Lena. Nem sei o seu apelido. Tudo o que sei são lágrimas choradas, momentos de dor que ela connosco partilhou. Por vezes o entusiasmo de querer mudar, noutras o desespero de se entregar, de se render. Eu estou melhor não estou? As pessoas dizem-me que estou com outra cara! Sim estava. Tinha um brilho e um sorriso nos olhos…
Lembro as lágrimas, e não esquecerei as palavras… É só mais um dia igual aos outros… vou estar sozinha… vou passar o dia a dormir… não tenho ninguém. Um feliz Natal para a tua família e para ti… Lembro (penso) o sofrimento, a dor, o frio, a fome, a solidão. Lembro as últimas palavras que me disse… Não te estou a mentir!, eu não posso mentir a ti e às tuas amigas.
Espero também não 'mentir'. Acreditar que haverá sempre um lugar para ti, que a tua vida não morreu, a tua existência continuará, onde e como quer que seja.
'Lena' [ Lisboa, 2001 ] »
Esperança De brilho e sorrisos renascendo em todos os olhares!
Esperança, irmão, que alguém seja abraço de Natal para ti,
« On the floor of Tokyo Or down in London town to go, go With the record selection With the mirror reflection I'm dancing with myself
When there's no-one else in sight In the crowded lonely night Well I wait so long For my love vibration And I'm dancing with myself Oh dancing with myself Oh dancing with myself Well there's nothing to lose And there's nothing to prove I'll be dancing with myself
If I looked all over the world And there's every type of girl But your empty eyes Seem to pass me by Leave me dancing with myself
So let's sink another drink 'Cause it'll give me time to think If I had the chance I'd ask the world to dance And I'll be dancing with myself
NOME Escreves um nome. [ pode pertencer a tantas pessoas ]
Mas quando escreves é único, tem um rosto irrepetível a ele associado.
Escreves um nome. E afinal é alguém muito próprio que tornas presente, que trazes até aqui, a esta escrita, à leitura que o amanhã possa fazer.
Um nome
[ agarrado a tantas pessoas ]
Aqui? Agora?
Não é anónimo. É a pessoa em si mesma que chega, que apresenta uma história.
Não é um nome, uma pessoa... É o nome, a Pessoa.
Pode ser o teu nome. Tu mesmo presente aqui.
(06Fev06)
« Artigo 7 1. A criança é registada imediatamente após o nascimento e tem desde o nascimento o direito a um nome, o direito a adquirir uma nacionalidade (...)
CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA Assembleia Geral das Nações Unidas - 20Nov89 »
...de retomar fôlego, beber Esperança, e sempre revisitar...
« Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer - Brilho sem luz e sem arder, como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quere. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a Hora!
é branca como a espuma das nuvens, como flocos de algodão soltos em brisas de outono
vais levar-me ao topo da serra?mostrar-me os pomares onde cresceste? de lá soltarei as asas, sobrevoarei o regato fresco e sei, onde quer que estejas, que o teu sorriso será o mais terno, pleno de luz e arco íris
sentes?.. é como flutuar em mar calmo... estamos de mãos dadas mas fechamos os olhos... e o mar, o mar será agora o nosso ventre comum, o embalar sussurrante das tardes de verão
gosto de ti, beijo-te e danço descalça em teu redor
já descobriste os pirilampos? vê!... são da cor do nosso coração a crescer contigo
Quando fechar os olhos, será novamente a serenidade dos teus braços a acolher-me
Deus escreve direito por linhas tortas E a vida não vive em linha recta Em cada célula do homem estão inscritas A cor dos olhos e a argúcia do olhar O desenho dos ossos e o contorno da boca Por isso te olhas ao espelho: E no espelho te buscas para te reconhecer Porém em cada célula desde o início Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade Pois foste criado e tens de ser real Por isso não percas nunca o teu fervor mais austero Tua exigência de ti e por entre Espelhos deformantes e desastres e desvios Nem um momento só podes perder A linha musical do encantamento Que é teu sol tua luz teu alimento.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
(Cem Poemas de Sofia, Ed. Revista Visão - JL, 2004)