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19.10.19
no século XVII
De Alberto Manguel no seu livro UMA HISTÓRIA DA CURIOSIDADE (tradução portuguesa, ed. Tinta da China, Lisboa, 2015):
Só muito mais tarde descobri que o questionamento podia ser outra coisa, uma espécie de emoção da demanda, a promessa de algo que se forma enquanto é formulado, uma progressão de perguntas que se multiplicam numa troca mútua entre duas pessoas e que não exigem conclusão.
(...)
Para uma criança, elas são tão essenciais à mente como o movimento o é ao corpo físico. No século XVII, Jean-Jacques Rousseau defendia que a escola tinha de ser um espaço onde a imaginação e a reflexão tivessem rédea livre, sem nenhum propósito prático óbvio nem objectivo utilitário. «O homem civil nasce, vive e morre na escravatura», escreveu. «Ao nascer, cosem-no em mantas; ao morrer, é pregado a um caixão; porquanto mantenha a figura humana, é acorrentado pelas nossas instituições.»
Não é preparando as nossas crianças para um qualquer comércio que a sociedade requeira, insistia Rousseau, que elas se tornam eficientes nas suas tarefas. Antes de serem capazes de criar algo verdadeiramente valioso, as crianças têm de ser capazes de imaginar sem restrições.
15.3.16
23.2.15
coincidência
(substantivo feminino)
- acto ou efeito de coincidir; simultaneidade;
- estado de duas ou mais coisas que se ajustam perfeitamente;
- concomitância acidental de dois ou mais fenómenos; acaso;
De certo modo, a coincidência aumenta a responsabilidade no desempenho criativo!
12.1.15
Vozes que cantam
Vozes que não deixam morrer.
Vozes que chegam através da palavra escrita.
Vozes de longe trazendo para perto outras realidades.
Vozes para escutar e procurar mudança.
Vozes que chegam através da palavra escrita.
Vozes de longe trazendo para perto outras realidades.
Vozes para escutar e procurar mudança.
«
Se permanece intacta a força dos landays*, parece que essa faculdade de improvisação perdura ao preço de um sobressalto cada vez mais desumano. Porque no exílio a mulher pashtun se encontra privada de todas as suas tarefas e prerrogativas. Confinada à área da sua tenda, ela é cada vez mais limitada pela pressão acrescida dos preconceitos religiosos. Já não tem os campos a cultivar, já não tem licença de andar com o rosto descoberto, nem a liberdade de cantar e dançar durante os casamentos. Torna-se uma espécie de peixe lançado fora da água e que expira, semelhante a uma planta arrancada que seca sob um sol escaldante.
Quanto aos homens, não se apercebem da dor das mulheres. Consideram-nas como auxiliares úteis que trouxeram consigo, como os camelos, as cabras ou os cavalos que constituem o seu património. No entanto, sem que o saibam ou sintam, as mulheres deixaram de lhes pertencer. Deixaram os seus corações longe e as suas almas vagueiam ainda pelos vales do Afeganistão. Por excesso de sofrimento, por redobrada mutilação, conseguem mais uma vez enganar os seus companheiros e destituí-los do seu bem, pois são apenas seres desertos.
Quanto aos homens, não se apercebem da dor das mulheres. Consideram-nas como auxiliares úteis que trouxeram consigo, como os camelos, as cabras ou os cavalos que constituem o seu património. No entanto, sem que o saibam ou sintam, as mulheres deixaram de lhes pertencer. Deixaram os seus corações longe e as suas almas vagueiam ainda pelos vales do Afeganistão. Por excesso de sofrimento, por redobrada mutilação, conseguem mais uma vez enganar os seus companheiros e destituí-los do seu bem, pois são apenas seres desertos.
Simultaneamente dura e terna, astuciosa e ingénua, violenta e doce, a mulher pashtun personifica a exilada absoluta. Mantém-se à distância da sua alma e sobrevive como que separada do seu coração. Excepto no que diz respeito ao combate patriótico - permanece indiferente às gesticulações dos homens assim como aos jogos das crianças. O seu único desejo é ir uma vez mais buscar água à fonte da sua aldeia, junto às altas montanhas nevadas.
Esta mulher exilada não pára de morrer
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o seu último suspiro
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o seu último suspiro
»
A VOZ SECRETA DAS MULHERES AFEGÃS por SAYD BAHODINE MAJROUH (1928-1988)
Versão portuguesa por ANA HATHERLY - Editora Cavalo de Ferro, 2005, pp 48-49
Versão portuguesa por ANA HATHERLY - Editora Cavalo de Ferro, 2005, pp 48-49
*género particular na poesia popular/oral em língua pashtun
30.9.14
Os estendais...
...nos pátios das casas são iguais em muitos lugares e gerações.
Na minha infância memória também houve brincadeiras-tarefas assim, com a mãe, a avó, os irmãos...
e abelhas enebriadas pelos odores de roupa lavada.
e abelhas enebriadas pelos odores de roupa lavada.
«
One day they were folding sheets, air-dried from the line. Suddenly, as if to herself, but loud enough for Martha to hear, her mother said, 'This is the only thing you need two people for.'
They carried on in silence. Stretch wide (arms not long enough yet, Martha), up, grip at the top, drop the left hand, catch without looking, stretch sideways, pull, over and again and catch, then pull, pull (harder, Martha), then cross to meet, up to Mummy's hands, down and pick up, one last pull, fold, hand it over, and wait for the next.
The only thing you needed two people for. When they pulled, there was something which ran through the sheet which wasn't just pulling the creases out of the sheet, it was more, something between the two of them. A strange sort of pulling, too: you pulled first as if wanting to get away from the other person, but the sheet held you, and then seemed to yank you back off your heels and towards one another. Was that always there?
»
One day they were folding sheets, air-dried from the line. Suddenly, as if to herself, but loud enough for Martha to hear, her mother said, 'This is the only thing you need two people for.'
They carried on in silence. Stretch wide (arms not long enough yet, Martha), up, grip at the top, drop the left hand, catch without looking, stretch sideways, pull, over and again and catch, then pull, pull (harder, Martha), then cross to meet, up to Mummy's hands, down and pick up, one last pull, fold, hand it over, and wait for the next.
The only thing you needed two people for. When they pulled, there was something which ran through the sheet which wasn't just pulling the creases out of the sheet, it was more, something between the two of them. A strange sort of pulling, too: you pulled first as if wanting to get away from the other person, but the sheet held you, and then seemed to yank you back off your heels and towards one another. Was that always there?
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ENGLAND, ENGLAND por JULIAN BARNES - Edição Picador, 1999, p21
21.9.14
mitos
«
Diário de Gibelin
1 de Junho de 1945.
(...)
Quem foi o imbecil que disse que o Homem vive de pão? Vive de mitos e para seu prazer inventa paraísos.
Nós estamos a viver um milagre, nesta aldeia que conservou os seus costumes, os seus ritos e as suas superstições. Noudeng, a mulher de Chouc, está grávida. Por ordem do feiticeiro, deixou de comer larvas de abelhas, tamarindos, beringelas, para que a criança não venha a ser turbulenta; nunca mais se pintou, para não ser vaidosa; evita de saltar por cima da correia do búfalo, para não ser gulosa e não se senta no último degrau da escada, para não atrasar o parto. Quando tem de tomar banho, ao fim do dia, deve voltar-se para o sol poente e alisar o cabelo com caudas de enguias. Deste modo, a criança sair-lhe-á do ventre com a facilidade dos movimentos da serpente.
Noudeng é muito bela e desejo-lhe que ponha cá neste mundo uma rapariga parecida com ela. Chouc, claro está, sonha com um rapaz.
(...)
»
OS TAMBORES DE BRONZE por JEAN LARTÉGUY
Livraria Bertrand, 2ª Edição, 1965 (?), p241
17.8.14
'Debaixo de Algum Céu'
«Frederico está orgulhoso da sua obra, da história que inventou e de ter sido capaz de a contar num desenho. Há-de desenhar também a história dos cavalos negros que voam sobre o mar, da ilha dos monstros azuis, de um país sem adultos, de um homem que era peixe e não se afogava nunca, nem na água nem fora dela.
Já não tem medo, porque pode inventar coisas e torná-las visíveis e boas. Se as ondas forem altas, ele desenha-se maior; se vier a trovoada, há-de ser ele a escolher os lugares onde caem os raios. Aos monstros e às feras desenhar-lhes-á tropeços que bastem para que o não alcancem. Que poder tão grande que tem...»
DEBAIXO DE ALGUM CÉU - NUNO CAMARNEIRO, 2013, p191
21.7.14
Versalhes
«
A estufa enchia-se serenamente de folhas, de flores e de insectos, que La Quintinie nunca matava. Encantava-o soerguer uma erva e descobrir toda uma multidão fervilhante de patas, antenas, cornos ou escamas.
Algumas plantas morriam, assaltadas por antónomos, ralos ou forfículas, e era sempre com tristeza que ele assistia a este espectáculo.
Mas gostava de pensar que uma morte assegura uma outra vida, que tudo, neste mundo, é troca e dádiva, e que o insecto, um dia, morreria por sua vez, oferecendo o ventre diáfano a outras raízes que ali iriam buscar a força de impelir para a luz o frágil invólucro de um caule.
»
O JARDINEIRO DO REI por Frédéric Richaud
21.9.13
'Dia Internacional da Paz'
...e porque comecei a ler um livro de Umberto Eco - "A Passo de Caranguejo" - que reune intervenções e artigos escritos pelo mesmo entre 2000 e 2005.
«
Mas, ainda que não conseguíssemos atingir este objectivo, qualquer paz que represente uma pequena bolha na curva geral da desordem entrópica, mesmo que não seja nem uma meta final nem uma etapa em direcção a uma meta precisa, será sempre um exemplo e um modelo.
A paz como exemplo. Pode parecer-vos um conceito muito cristão, mas julgo que seria aceite por muitos sábios pagãos - vamos fazer as pazes entre nós dois: resolvemos apenas os problemas entre Montéquios e Capuletos, o resto do mundo continua na mesma, mas pelo menos fica a demonstração de que a negociação ainda é um caminho possível.
Todo o trabalho que fazemos em prol da redução dos conflitos locais vai-nos dando a esperança de que um dia os conflitos globais também se hão-de resolver.
(...)
A nossa única esperança é continuar a trabalhar nas pazes locais.
»
DIFEL S.A., 2007, 4ª edição, p.35
5.8.12
território de liberdade
Último parágrafo de um artigo (jornalista Ana Soromenho, revista REVISTA do semanário EXPRESSO de 4/AGO/12) sobre Dulce Maria Cardoso, o seu livro «O Retorno» e a participação na Feira Literária de Paraty:
«Na FLIP, fui a uma favela falar com adolescentes. Disse-lhes que, para quem tem vidas muito duras, escrever e ler pode salvar. O nosso território não é a família ou o país. É a nossa cabeça. Nós pertencemos aos nossos pensamentos.»
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caligrafias alheias,
percurso de aprendiz,
sem distância
27.2.12
Ensaios Literários
Procurar Liberdade (Igualdade?) implica aprofundar as etapas de Humilhação e Glória vivenciadas por outros indivíduos.
Felizmente!, tenho a liberdade de (na) Leitura e escolha da mesma.
Assim, deixo também a sugestão a quem procurar...
10.12.11
O Conto da Ilha Desconhecida
«
Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior maneira de gostar.
»
José Saramago
6.2.11
«A mudança da pele»
Às vezes apetece-me começar a viver uma outra vida,
com outro rosto, outra morada, outra identidade,
sem contudo deixar de ser eu, sempre e só eu,
e acreditem que gostava de ficar sentado numa esplanada,
numa cadeira branca de palhinha, a ver-me ser outro
sem deixar de ser eu, com os mesmos tiques,
com a mesma exaltada paixão pelo timbre da palavra,
com o mesmo vício dos livros, que é o único
que verdadeiramente tenho e que me custa os olhos da cara.
Mas é impossível, paciência. Resta-me a transfiguração
naquilo que escrevo, compulsivamente, como um asmático
a tentar libertar-se do ar que lhe oprime o peito.
E para dizer a verdade, que é coisa que a poesia
não tem necessariamente que dizer, não sei ao certo
o que poderia ser se chegasse a ser outro.
O que faria eu sem outra identidade? Seria astronauta,
veterinário por amor aos bichos, corretor de bolsa
transformado em pintor impressionista como o meu querido
Gauguin, cinzelador de metais raros e preciosos,
ourives de corte, cronista das tragédias sociais?
Creio que nenhuma das hipóteses me agradaria
e voltaria a ser aquilo que sempre fui,
heterónimo de mim mesmo, a fugir de mim aos ziguezagues,
cobra largando a pele dos ódios e dos medos
sem se importar com a estação em que a mudança se opera
(e para que a rima não falte), seja ela Inverno ou Primavera.
José Jorge Letria, em «Produto Interno Lírico»
19.1.11
perguntas < > respostas
«
A ciência é pois um elemento essencial do diálogo interminável entre o homem e o seu mundo.
»
citando João Caraça
em "Ciência" colecção "O que é" da editora Quimera, 2001
A ciência é pois um elemento essencial do diálogo interminável entre o homem e o seu mundo.
»
citando João Caraça
em "Ciência" colecção "O que é" da editora Quimera, 2001
11.12.10
reflexos
«
Ver o mundo como um espelho de si mesmo dá-lhe a maravilhosa oportunidade de receber os reflexos positivos.
(...)
Quando vê a beleza em tudo, ela é um reflexo de si mesmo.
Existem espelhos em todo o lado. Sempre que há uma relação, há um espelho e quanto mais profunda é a relação, mais poderoso é o espelho.
É divertido utilizar o processo do espelho para descobrir quem somos através dos reflexos exteriores. A chave consiste sempre em mergulhar dentro de si para descobrir o significado do reflexo.
(...)
Fique aberto para receber a resposta que pode chegar-lhe sob a forma de palavras, sensações ou imagens.
»
Shakti Gawain
24.11.10
Chapitô
Certamente não é exemplo único e pode ter efeitos 'mínimos',
mas achei bastante curioso saber que dispõem de LIVRO de ACLAMAÇÕES para além das comuns reclamações...
Parabéns pela atitude!!
6.8.10
dentro ou adiante
«
...Estão a ouvir? Já não conseguem ouvir. Estão a ver! O instrumento tem dentro de si um mundo, teórico e físico. Só que demonstrá-lo, ninguém o faz, do ponto de vista prático-musical. O mesmo se passa com os instrumentos de sopro. E com todas as pessoas... agora em sentido figurado. Conheço pessoas que possuem dentro de si todo um universo, incomensurável. Mas fazer com que ele saia cá para fora, isso ninguém o faz. Seria o fim. Mas adiante... Quatro cordas. Mi - Lá - Ré - Sol...
»
O CONTRABAIXO de Patrick Süskind
15.6.10
sobre Arte
Citando José Régio no seu ensaio «Em Torno da Expressão Artística», da série Cadernos Culturais publicado por Editorial Inquérito em 1940 (2ª edição).
«
Ora com esse poder de aprofundar a natureza, a vida, a humanidade, a realidade, e se elevar sobre elas; com esse dom de entrar à intimidade dos seres ou coisas e lhes sobrepairar; com essa regalia (ilusória ou não) de simultâneos mergulho e voo; com o seu segredo, em suma, dos jogos de sombra e luz de tudo - se relacionam a moralidade intrínseca da arte e o complexo prazer que nos dá, a serenidade a que, a despeito de tudo, nos convida a certo halo de beleza final (tão pouco definível) com que alarga tudo o que toca...
Se inútil é isto que a arte oferece aos homens, se a forma de conhecimento e contemplação que a arte implica ou propaga é inútil, - legítimo é falar da inutilidade da arte: porque exigir-lhe outra moralidade; pedir-lhe manifestações de qualquer beleza que não passe de concepção demasiado particular; buscar nela um prazer, ou prazeres, que não pode fornecer; esperar dela uma tranquilidade fisiológica ou intelectual demasiado superficial e humana a par da serenidade que insinua aos que a amam, - é colocar-se perante a arte na mesma pobre atitude dos que, impotentes a compreenderem-na, impotentemente a procuram torcer a fins que são deles... não dela.
»
1.6.10
'Dia Mundial da Criança'
Todo o Ser Humano tem direito a ser eterna Criança:
na alegria, no prazer das descobertas e aprendizagens, em crescimento sempre renovado!
Para dias especiais - todos os dias, portanto :) - fica a sugestão de leitura:
«Onda» de Suzy Lee, editora Gatafunho
(no infindável ciberespaço também é possível encontrá-lo num pequeno vídeo de apresentação)

